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Fátima: explicação e remédio da crise contemporânea

Nossa Senhora de Fátima

Os fatos contemporâneos mais marcantes são:

1) A crise universal.

A sociedade humana apresentava na primeira parte deste século, isto é, até 1914, um aspecto brilhante. O progresso era indiscutível em todos os terrenos. A vida econômica tinha alcançado uma prosperidade sem precedentes. A vida social era fácil e atraente. A humanidade parecia caminhar para a era de ouro. Alguns sintomas graves destoavam das cores risonhas deste quadro. Havia misérias materiais e morais, é certo.

Primeira Guerra Mundial

Primeira Guerra Mundial

Mas poucos eram os que mediam em toda a sua extensão a importância destes fatos. A grande maioria esperava que a ciência e o progresso resolvessem todos os problemas. A primeira guerra mundial veio opor um desmentido terrível a estas perspectivas. Em todos os sentidos, as dificuldades se agravaram incessantemente até 1939. Sobreveio a segunda guerra mundial, e com isto chegamos à condição presente, em que se pode dizer que não há sobre a Terra uma só nação que não esteja a braços, em quase todos os campos, com crises gravíssimas.

Em outras palavras, se analisamos a vida interna de cada nação, notamos nela um estado de agitação, de desordem, de desbragamento de apetites e ambições, de subversão de valores que, se já não é a anarquia franca, em todo o caso caminha para lá. Nenhum estadista de nossos dias soube ainda apresentar o remédio que corte o passo a este processo mórbido, de envergadura universal.

2) As guerras mundiais.

A de 1914-1918 pareceu uma tragédia insuperável. Na realidade, a de 1939-1945 a superou do ponto de vista da duração, da universalidade, da mortandade e das ruínas que ocasionou. Ela nos deixou a dois passos de uma nova guerra, ainda pior sob todos os pontos de vista. Massas humanas têm vivido estes últimos anos no terror dessa perspectiva, cônscias de que um terceiro conflito mundial talvez acarrete o fim de nossa civilização.

A atualidade das revelações de Fátima

 

Santo Agostinho

Santo Agostinho

O elemento essencial das mensagens do Anjo de Portugal e de Nossa Senhora consiste, como veremos, em abrir os olhos dos homens para a gravidade desta crise universal, em lhes ensinar sua explicação, à luz dos planos da Providência Divina, e em indicar os meios necessários para evitar a catástrofe. É a própria história de nossa época, e mais do que isto o seu futuro, que nos é ensinado por Nossa Senhora.

São Vicente Ferrer

São Vicente Ferrer

O Império Romano do Ocidente se encerrou com uma catástrofe, iluminada e analisada pelo gênio de um grande doutor, que foi Santo Agostinho. O ocaso da Idade Média foi previsto por um grande profeta, que foi São Vicente Ferrer. A Revolução Francesa, a qual marca o fim dos Tempos Modernos, foi prevista por outro grande profeta, que foi ao mesmo tempo um grande doutor, São Luís Maria Grignion de Montfort. Os Tempos Contemporâneos, que parecem na iminência de se encerrar com nova crise, têm um privilégio maior: veio Nossa Senhora falar aos homens.

São Luís Grignion de Montfort

São Luís Grignion de Montfort

Santo Agostinho não pôde senão explicar para a posteridade as causas da tragédia que presenciava. São Vicente Ferrer e São Luís Grignion de Montfort procuraram em vão desviar a tormenta: os homens não os quiseram ouvir. Nossa Senhora a um tempo explica os motivos da crise e indica o seu remédio, profetizando a catástrofe caso os homens não a ouçam. De todo ponto de vista — pela natureza do conteúdo como pela dignidade de quem as fez — as revelações de Fátima sobrepujam, pois, tudo quanto a Providência tem dito aos homens na iminência das grandes borrascas da História. Os diversos pontos das revelações relativos a este tema constituem propriamente o elemento essencial das mensagens. O mais, por importante que seja, é mero complemento.

O pressuposto terrível: crise religiosa e moral

Não há uma só aparição em que não se insista sobre um fato: os pecados da humanidade se tornaram de um peso insuportável na balança da justiça divina. Esta a causa recôndita de todas as misérias e desordens contemporâneas. Os pecados atraem a justa cólera de Deus. Os castigos mais terríveis ameaçam pois a humanidade. Para que não sobrevenham, é preciso que os homens se convertam. E para que se convertam, é preciso que os bons orem ardentemente pelos pecadores e ofereçam a Deus toda a sorte de sacrifícios expiatórios.

Vemos que o pensamento constante de todas as mensagens é este. O mundo está a braços com uma terrível crise religiosa e moral. Os pecados cometidos são incontáveis. E são a verdadeira causa da desolação universal. O modo mais acertado para remediar seus efeitos consiste na oração e na reparação.

O falso otimismo e as mensagens de Fátima

Os católicos, por espírito de acomodação, por oportunismo, pelo desejo pueril de concordar em tudo com este século, para o conduzir por vias extremamente problemáticas a uma conversão quimérica, pensam, agem, sentem-se neste mundo de crise e de derrocada como se estivessem no século XIII, com São Luís reinando em França, São Fernando em Castela, São Tomás de Aquino e São Boaventura iluminando a Igreja com o esplendor de sua ciência e de sua virtude. Quando hoje em dia, só entre rapazolas e moçoilas se encontram ainda pessoas que não tomaram consciência da gravidade evidente da crise por que passamos, esses nossos católicos, muitas vezes quarentões ou mais do que isso, entram freneticamente na farândola dos despreocupados e entoam loas e hinos a uma situação que a outros arranca gemidos de angústia e até gritos de dor. E se há quem lhes deseje abrir os olhos, enfurecem-se. Tolerantes para com tudo e para com todos, não podem suportar que se mostre a gravidade da situação em que estamos.

A palavra de Nossa Senhora, a palavra do Papa, bastarão para os convencer? Não parece provável. Mas pelo menos podem imunizar contra essa onda de otimismo estúrdio aqueles que talvez se sentissem propensos a lhe dar sua adesão.

A mensagem de Fátima e os católicos de vistas curtas

 

Nosso Senhor Crucificado

Nosso Senhor Crucificado

Ao lado deste otimismo febricitante, que gostaria de fazer do apostolado uma perpétua festinha de adolescentes, um eterno pic-nic que aborrece na própria piedade tudo quanto pode evocar a idéia de dor — os Crucifixos em que a Divina Vítima figura com suas Chagas, vertendo o Sangue redentor, os paramentos pretos para as missas de defunto, etc. — temos também outro defeito a considerar. É a abulia. Existe uma falsa piedade que desvia os homens da consideração de todos os problemas grandes. Dissolve-se a Civilização Cristã, rui o mundo, convulsiona-se a Terra? O homem intoxicado por essa forma de piedade nada vê, nada sente, nada percebe. Sua vida é apenas sua vidinha, no cumprimento correto e pacato dos seus pequenos deveres individuais, dos seus pequenos atos de piedade, na solução exclusiva de seus pequenos casos de consciência. Seu zelo não vai mais longe do que seus horizontes, e estes, dói dizê-lo, vão pouco além da ponta de seu nariz. Se se lhe fala de política, de sociologia, de filosofia e teologia da História, de apologética, desvia-se até com certo medo: o medo que os termitas têm à luz do sol. Para ele também, Fátima contém uma grande lição. Nossa Senhora desceu à Terra para atrair para este imenso panorama o zelo das almas. Ela quer piedade, quer reparação, mas baseia seu desejo numa visão imensa dos grandes interesses de Deus em toda a vastidão da Terra.

Não se trata, dentro das perspectivas sem limites de Fátima, de salvar só esta ou aquela alma individualmente considerada. Trata-se de ver mais alto e mais longe. É pela salvação de toda a humanidade que se há de lutar, pois não é só este ou aquele homem, mas são legiões de almas que ameaçam perder-se em uma crise das mais graves da História. E é para essa tarefa imensa que Nossa Senhora pede não um Cireneu, mas muitos, muitíssimos deles, falanges inteiras.

Em Fátima não há apenas um apelo para que os três pastorinhos façam penitência. Este apelo se dirige ao mundo inteiro. É toda a piedade contemporânea que deve ter, por assim dizer, um forte colorido reparador e expiatório.

As mensagens de Fátima e a “heresia das obras”

Notemos ainda outro ponto. Ninguém pode duvidar da importância das obras de apostolado. Os Papas conclamam para elas diariamente os fiéis. Entretanto, em sua extrema concisão, Fátima nada de particular nos diz sobre isto. Porque a Providência não as julgue necessárias, urgentes? Quem poderia admitir tal aberração? Então por que o silêncio de Fátima? É que vivemos em uma época dominada pelos sentidos, em que os homens reconhecem facilmente a necessidade de agir, pois a ação é algo que os sentidos percebem, cuja eficácia muitas vezes é suscetível de ser avaliada por cifras, por estatísticas, por resultados palpáveis.

E por isto não é tão difícil atrair a atenção das almas verdadeiramente zelosas para a importância da ação.

Mas é e continua a ser muito difícil atraí-las para o que é espiritual, interior, invisível. E por isto a oração, a vida interior, o homem as compreende mais dificilmente, a elas dedica menos tempo e menos interesse. É bem compreensível que em Fátima Nossa Senhora tenha insistido na necessidade da oração e da penitência, a ponto de fazer disto o elemento essencial de sua mensagem. Que belo proveito teria tirado deste fato Dom Chautard, se no seu tempo todo o assunto “Fátima” estivesse tão esclarecido quanto hoje.

Não basta rezar: é preciso expiar

 

Nossa Senhora de Fátima

Nossa Senhora de Fátima

Por fim, um ponto essencial. Nossa Senhora não fala apenas em oração. Ela quer expiação, sacrifício. Haverá época em que mais se tenha fugido da dor? Haverá época em que menos se tenha falado sobre a necessidade da mortificação? Haverá época em que menos se tenha tido a noção da importância do sacrifício? Pois é para este ponto que Nossa Senhora atrai especialmente nossa atenção. Nos grandes séculos de piedade, a expiação era um fato freqüente na vida dos homens e dos povos. Faziam-se imensas peregrinações para expiar pecados. Nas grutas, nas florestas, nos claustros, encontravam-se verdadeiras legiões de almas votadas à vida de expiação. Nos testamentos, deixavam-se fortunas inteiras para obras pias ou de caridade, em remissão dos pecados. Havia confrarias especialmente destinadas a fomentar a penitência. Havia procissões expiatórias em que tomavam parte cidades inteiras. Hoje não faltam manifestações coletivas de piedade. Mas, por mais que a Igreja nos incite à penitência, que papel ocupa esta em tais manifestações? Que papel ocupa ela em nossa vida privada? Pequeno, pequeníssimo até.

Parece indiscutível que, também neste ponto, Fátima nos dá preciosas lições.

 Plinio Corrêa de Oliveira

*   *   *

(Catolicismo, nº 29, maio/1953)
http://www.pliniocorreadeoliveira.info/1953_029_CAT_Fatima_explicacao.htm 

Fátima: o acontecimento capital do século XX

Lúcia, Francisco e Jacinta

Sobre Fátima — como sobre outros assuntos em nosso País — muito se fala e pouco se sabe de positivo, pelo menos na grande massa. Ninguém ignora que se trata de uma invocação de Nossa Senhora a cintilar no firmamento da Igreja. Qual a origem histórica desta invocação? Qual o seu significado exato? Qual seu alcance para a vida espiritual e as atividades de apostolado? É o que muitos não saberiam dizer.

Bem entendido, um simples artigo de imprensa não pode esgotar matéria importante e complexa como esta, sobre a qual já existe toda uma volumosa bibliografia em todos os países católicos. Dos fatos, daremos apenas uma narração muito sucinta, o mínimo necessário para que leitores menos informados possam acompanhar o comentário. Neste primeiro artigo, desejamos acentuar alguns aspectos das mensagens de Nossa Senhora, que em geral não se põem no necessário relevo.

Os videntes: os três pastorinhos de Fátima

 

Lúcia, Francisco e Jacinta

Lúcia, Francisco e Jacinta

Lúcia, Francisco e Jacinta são as três crianças favorecidas pelas visões de Fátima. Lúcia nascera em 1907, Francisco em 1908, Jacinta em 1910. Francisco e Jacinta eram irmãos, e Lúcia era prima deles. Os três provinham de modestíssima família de Aljustrel, vilarejo próximo do lugar das aparições. Absolutamente ignorantes, tinham por ocupação o pastoreio. Passavam, pois, fora de casa grande parte do dia, aproveitando o tempo, na medida em que o trabalho o permitia, para brincar e rezar. Nessa vida inocente, suas almas conservavam uma candura angélica, e iam adquirindo uma piedade e uma força de que deram ulteriormente provas admiráveis.

A Cova da Iria, lugar das visões, era então um ermo, e pertencia aos pais de Lúcia. Segundo tradições dignas de respeito, o Bem-aventurado Nuno Álvares Pereira estivera orando ali na véspera da famosa batalha de Aljubarrota.

As visões ocorridas em 1915, 1916 e 1917

 

Pastorinhos na Cova da Iria

Pastorinhos na Cova da Iria

As visões de Fátima se dividem em três grupos bem distintos. As primeiras se deram, não propriamente na Cova da Iria, mas em lugar muito próximo, denominado Lapa do Cabeço. Ocorreram em 1915 e 1916. Apareceu nelas um Anjo que se intitulou o Anjo de Portugal.
As outras se verificaram na Cova de Iria, em 1917.

Apareceu sempre Nossa Senhora, e uma vez toda a Sagrada Família. Quer por sua seriação cronológica, quer pela qualidade das pessoas que se manifestaram, quer pelo conteúdo das mensagens, é fora de dúvida que as aparições de 1915 e 1916 foram uma preparação para as de 1917.

Estas constituem a parte central de toda a série de visões.

Vem por fim um grupo complementar, constituído pelas aparições de Nossa Senhora aos videntes depois das que ocorreram em Fátima. Deram-se em datas diversas e a cada um deles em separado. Constituem complemento, aliás essencial, das anteriores.

Anjo de Portugal prepara a vinda da Virgem Santíssima

 

Anjo de Portugal e a Sagrada Comunhão

Anjo de Portugal e a Sagrada Comunhão

Em 1915, entre abril e outubro, deu-se uma primeira manifestação sobrenatural. Lúcia guardava o rebanho com três outras meninas, quando “viram pairando sobre o arvoredo do vale, que se estendia a seus pés, uma nuvem, mais branca do que a neve, algo transparente, com forma humana”. Francisco e Jacinta não estavam presentes. Em dias diferentes, esta aparição se repetiu duas vezes.

Em 1916, deu-se nova aparição, desta vez em presença de Lúcia, Jacinta e Francisco. Não havia outras crianças. Repetiram-se assim mais duas aparições. O Anjo se manifestava sob a forma de um jovem resplendente, de uma consistência e um brilho como do cristal atravessado pelos raios do sol. Ensinou-os a rezar, com a fronte curvada até o chão, a seguinte prece: “Meus Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam”. E acrescentou que os Corações de Jesus e de Maria estavam atentos à voz de suas súplicas. Recomendou-lhes que oferecessem “tudo que pudessem”, em reparação pelos pecados e pela conversão dos pecadores.

Declarou que era o Anjo de Portugal, e que deviam orar por sua pátria. Na terceira aparição, o Anjo trazia um cálice na mão, e sobre ele uma Hóstia da qual caíam dentro do cálice algumas gotas de sangue. Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a seguinte oração: “Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da Terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferença com que é ofendido. E, pelos méritos infinitos de Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores”. Depois, deu a Hóstia a Lúcia; e o cálice, deu-o a beber a Francisco e Jacinta, dizendo ao mesmo tempo: “Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajados por homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus”.

Nesta narração sucinta, reproduzimos só o essencial, omitindo a profunda impressão que as palavras do Anjo produziram nas três crianças, os numerosos sacrifícios com que a partir desse momento começaram a expiar pelos pecadores, a oração a bem dizer incessante, em que se transformou sua vida. Estavam assim sendo preparadas para as revelações de Nossa Senhora.

Nossa Senhora pede a conversão dos pecadores

Milagre_do_SolAs aparições de Nossa Senhora foram em número de seis, respectivamente nos dias 13 de maio, junho, julho, setembro e outubro de 1917. A aparição do mês de agosto ocorreu no dia 19, e não no dia 13. Os três pastorinhos estiveram presentes a todas. À primeira, não estavam na Cova da Iria senão eles. Nas outras, o número de pessoas presentes foi crescendo a ponto de se transformar, na última, em verdadeira multidão, calculada em 70.000 pessoas.

Na primeira aparição, Nossa Senhora anunciou que viria mais cinco vezes, em cada mês seguinte, e mais tarde voltaria uma sétima vez. E, diga-se de passagem, esta última promessa ainda está para se realizar. Em que ocasião será? Prometeu Ela o Céu aos pastorinhos, e lhes pediu que aceitassem os sofrimentos que a Deus aprouvesse enviar-lhes para reparação dos pecados e conversão dos pecadores. Os três aceitaram. Nossa Senhora lhes predisse então que sofreriam muito, mas a graça de Deus não os abandonaria. E por fim lhes recomendou que rezassem diariamente o Terço para alcançar o fim da guerra e a paz do mundo.

Devoção ao Rosário e ao Imaculado Coração de Maria

Na segunda aparição, Nossa Senhora insistiu sobre o Terço diário e recomendou às três crianças que aprendessem a ler. Ensinou-lhes também uma jaculatória, a ser rezada no Terço, entre os mistérios: “Oh meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno e os pobres pecadores, especialmente os mais necessitados”. Nesta aparição, Nossa Senhora prometeu que levaria para o Céu, em breve, Francisco e Jacinta, e anunciou que Lúcia viveria por mais tempo, para cumprir na terra uma missão providencial: “Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração”. E como Lúcia se mostrasse apreensiva, confortou-a Nossa Senhora prometendo: “O meu Imaculado Coração será teu refúgio e o caminho que conduzirá até Deus”.

 

Imaculado-Coracao-de-Maria

Imaculado Coração de Maria

Nossa Senhora apareceu pela terceira vez a 13 de julho. Depois de haver recomendado mais uma vez a recitação diária do Terço, ensinou aos pequenos pastores uma nova jaculatória a ser rezada com freqüência, e especialmente quando fizessem algum sacrifício: “Oh meu Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores, pelo Santo Padre e em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”.

A visão do inferno e anúncios de castigos

 

Visão do inferno segundo Santo Anselmo

Visão do inferno segundo Santo Anselmo

Maria Santíssima, então, fez ver o inferno aos três pastorinhos: “Vimos um mar de fogo, e nele mergulhados os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que saíam delas mesmas juntamente com nuvens de fumo, caindo por todos os lados — como as fagulhas nos grandes incêndios —, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizavam e faziam estremecer de pavor.

[...] Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa.

“Assustados, e como que a pedir socorro, levantamos a vista para Nossa Senhora, que nos disse com bondade e tristeza:
— “Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração.

 

Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar; mas, se não deixarem de ofender a Deus, virá outra pior”.

Estas últimas palavras abriam naturalmente caminho para outro assunto. A Santíssima Virgem continuou: “Quando virdes uma noite iluminada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo dos seus crimes por meio da guerra, da fome e da perseguição à Igreja: os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, e várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”.

O milagre do sol e o segredo de Fátima

A 13 de agosto não houve aparição: os pequenos videntes estavam presos, à disposição do Administrador de Ourém, movido de zelo laico e republicano. Nossa Senhora apareceu entretanto, e inesperadamente, no dia 19 do mesmo mês. Neste dia, a Santíssima Mãe de Deus prometeu um insigne milagre para outubro, comunicou suas instruções relativamente ao emprego do dinheiro que os fiéis deixavam no local das aparições, e mais uma vez recomendou orações e penitência: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.

A 13 de setembro, a Virgem Santíssima insistiu também na recitação diária do Terço para alcançar o fim da guerra, elogiou a fidelidade dos pastorinhos à vida de mortificação que lhes tinha pedido e recomendou que se moderassem algum tanto neste ponto. Confirmou a promessa de um milagre na aparição de outubro, e anunciou que os três veriam então a Sagrada Família. Prometeu também operar algumas das curas pedidas por eles.
Foi somente a 13 de outubro que Nossa Senhora revelou sua identidade aos pastorinhos, dizendo: “Eu sou a Senhora do Rosário”. Anunciou que a guerra terminaria em breve, e recomendou: “Não ofendam mais a Nosso Senhor, que já está muito ofendido”. Lúcia pediu a cura de algumas pessoas. A Senhora respondeu que curaria “uns sim, outros não”. E acrescentou: “É preciso que se emendem, que peçam perdão de seus pecados”. Apareceu em seguida a Virgem com São José e o Menino Jesus. Em certo momento, apresentava-se como a Senhora das Dores. Pouco depois, como a Senhora do Carmo.

Foi durante esta aparição que ocorreram os sinais prometidos para autenticar o que narravam os pastorinhos.

Na visão de julho, a Santíssima Virgem comunicou seu famoso segredo. A parte que se conhece é da maior importância. Nossa Senhora pediu que a humanidade se convertesse de seus pecados e que o Santo Padre, com todos os Bispos, consagrasse a Rússia a seu Imaculado Coração. Se não, sobreviria nova guerra, que muitas nações seriam aniquiladas, a Rússia espalharia os seus erros, o Santo Padre teria muito que sofrer.

Acerca da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, a Irmã Lúcia teve nova visão em 1929, segundo refere o Pe. João de Marchi (Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, p. 308). Nessa visão, ocorrida na capela das Irmãs Dorotéias, em Thuy, na Espanha, Nossa Senhora mais uma vez pediu a consagração da Rússia ao seu Coração, a ser feita pelo Papa em união com os Bispos de todo o mundo.

Plinio Corrêa de Oliveira

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Esta é, em síntese, a história das aparições de Fátima. O texto das mensagens, extraímo-lo de Era uma Senhora mais brilhante que o Sol, do Revmo. Pe. João de Marchi, e de Francisco, do Revmo. Pe. J. Rolim.

(Catolicismo nº 28, abril/1953)
http://www.pliniocorreadeoliveira.info/1953_028_CAT_Fatima_o_acontecimento.htm 

A devoção ao Coração de Maria salvará o mundo do comunismo

Imaculado Coração de Maria

Nossa Senhora descreveu a situação do mundo como gravíssima, apontou como causa desta situação a espantosa decadência moral da humanidade, ameaçou-nos com terríveis punições terrenas — nova guerra, alastramento mundial dos erros do comunismo, perseguições à Igreja — e com uma punição eterna mil vezes pior, o inferno, se não nos emendarmos; e por fim prescreveu os meios necessários para que cheguemos à emenda e evitemos tantos castigos.

Ameaçou-nos com terríveis punições terrenas — alastramento mundial dos erros do comunismo!

Ameaçou-nos com terríveis punições terrenas — alastramento mundial dos erros do comunismo!

Em que pese a alguns doidivanas que fecham os olhos à realidade mais evidente e se comprazem em afirmar que está em ordem com Deus este mundo em que vivemos – de dúvida, de naturalismo, de indisciplina moral e de adoração da felicidade terrena – é preciso crer o contrário, pois é o contrário que Nossa Senhora nos diz.

É bem certo que alguns sociólogos evolucionistas — muito mais evolucionistas do que sociólogos — se deleitam em dizer que o dia de hoje é melhor que o de ontem, e que o de amanhã será necessariamente melhor que o de hoje; Nossa Senhora porém nos afirma que a verdade é muito outra: o dia de amanhã só será melhor que o de hoje se nos emendarmos e fizermos penitência. De outro modo, por mais que o progresso material, a medicina, as finanças, as diversões – o conforto da vida, enfim – se desenvolvam, caminhamos para um grande e universal colapso.

Um exemplo: O "teólogo" Andrés Torres Queiruga afirmou que: 'Deus não condena ninguém. Nem a Hitler!'

Um exemplo: O “teólogo” Andrés Torres Queiruga afirmou que: ‘Deus não condena ninguém. Nem a Hitler!’

Também não faltam, infelizmente, teólogos otimistas, que criam em torno de si uma agradável atmosfera de simpatia afirmando que quase ninguém se condena ao inferno. Nossa Senhora contudo ensina o contrário, e o faz não só por palavras, como ainda com o argumento invencível do fato concreto: abre o inferno aos olhos dos pastorinhos aterrorizados, para que contem ao mundo inteiro o que viram. E é em Nossa Senhora, e não em certa teologia morna, de água de flor de laranjeira, que cumpre crer.

 

A vida sobrenatural é a verdadeira solução

Já fizemos notar de passagem que Nossa Senhora aponta como remédios fundamentais para o mundo contemporâneo a oração, a penitência, a emenda de vida. É destas três providências meramente espirituais que Ela faz depender a manutenção da paz, a preservação do Ocidente contra a propaganda comunista, a sobrevivência pois da própria civilização.

Poderão chocar-se com isto muitos católicos mal avisados, que colocam todas as suas esperanças em meios meramente humanos. Afigura-se-lhes que tudo estaria salvo no dia em que a Igreja estivesse fortemente dotada de seminários, universidades, jornais, revistas, livrarias, cinemas, teatros, obras de caridade e de assistência social. Nesta concepção, tudo se reduz ao âmbito meramente natural. A descristianização tem como causa a insuficiência de nossos meios de propaganda e de ação. No dia em que tivermos remediado esta insuficiência, teremos vencido a descristianização. No entanto, aparece Nossa Senhora em Fátima, e não diz sobre todos estes meios de ação uma só palavra. Como explicar este mistério? Onde fica a palavra dos Papas, que não têm cessado de recomendar tudo aquilo sobre o que Nossa Senhora silenciou? Estarão as mensagens de Fátima em contradição com as diretrizes pontifícias?

Cristo Rei

Cristo Rei

Seria fácil responder a todas estas questões, se os católicos se dessem ao trabalho de ler seriamente e por extenso os documentos pontifícios, em lugar de se contentar com citações que encontram esparsas aqui e acolá, em certos livros e jornais empenhados, ao que parece, em fazer uma verdadeira filtragem de tudo quanto na palavra do Sumo Pontífice eventualmente colida com seus preconceitos.

Os Papas não se cansam de recomendar o uso de todos os meios naturais legítimos para promover o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Contudo não ficam apenas nisso. Em documentos verdadeiramente sem conta, mostram que os meios naturais não serão de nenhuma eficácia se não houver nos que lutam pela Igreja uma vida contínua de piedade, de mortificação, de sacrifício; se os soldados de Cristo não tiverem em vista constantemente que os meios de ação naturais devem ser canais da graça de Deus, e que o apóstolo — clérigo ou leigo — precisa ser ele próprio um reservatório das graças que devem vivificar suas obras. Em uma palavra, as teses essenciais do livro incomparável de Dom Chautard, “A Alma de todo Apostolado”, têm sido inculcadas de todos os modos pelos Papas. E são esses mesmos os princípios que Nossa Senhora nos ensina em Fátima. A Virgem Santíssima não diz que não nos dediquemos inteiramente às obras de apostolado. Mas ela repete o ensinamento de Nosso Senhor em Betânia: é necessário viver em íntima união de alma com Deus, pois todo o resto daí dimana, e sem tal união as obras mais sábias, mais úteis, mais oportunas resultarão miseravelmente estéreis.

Devoção ao Anjo tutelar da Pátria

 

Anjo de Portugal

Anjo de Portugal

Notemos agora muito rapidamente outros aspectos das mensagens de Fátima. A aparição do Anjo de Portugal nos faz lembrar a doutrina da Igreja, de que cada povo tem seu próprio Anjo da Guarda. Houve tempo em que cada nação tinha particular devoção ao seu Anjo Custódio, invocando-o em suas tribulações, e especialmente na luta pela manutenção do povo no grêmio da Igreja. Temos pensado nisto? Cultuamos o Anjo da Guarda do Brasil?

O Anjo reza em presença dos pastorinhos, profundamente inclinado, com a face em terra. É um exemplo que devemos imitar. Em nossas orações, cumpre sejamos confiantes, íntimos, filiais. Mas é preciso não esquecer que a verdadeira piedade filial não exclui, antes supõe o mais profundo respeito. É este mais um ponto em que as revelações de Fátima contêm preciosos ensinamentos para o homem moderno. Pois, à força de falarmos em democracia em tudo e para tudo, acabamos não raras vezes por deformar de tal maneira nossa mentalidade, que introduzimos um tônus igualitário até em nossas relações com Deus!

 

Devoções que o progressismo combate

Ultimamente, o liturgicismo [progressismo aplicado à liturgia] tem instilado nas fileiras católicas preconceitos tenazes contra certas devoções, entre as quais o culto ao Santíssimo Sacramento “extra Missam” e o Santo Rosário.

Ora, ambas estas devoções são fortemente inculcadas em Fátima.

Se houvesse no culto eucarístico “extra Missam” qualquer coisa de intrinsecamente contrário à verdadeira maneira de entender a Presença Real, seria impossível que a Providência determinasse que a adoração eucarística do Anjo e a primeira comunhão dos pastores se realizassem do modo por que efetivamente se realizaram.

Quanto ao Santo Rosário, seria difícil recomendá-lo com insistência maior. “Eu sou a Senhora do Rosário”, disse de si mesma a Santa Virgem na última das aparições. E em quase todas elas inculcou explicitamente esta devoção aos pastorinhos. Como pretender, pois, que o Rosário perdeu algo de sua atualidade?

Apregoa-se ainda que a meditação do inferno é inadequada a nossos dias, e capaz apenas de incutir um temor servil. Esta afirmação cai por terra fragorosamente, à vista do que ocorreu em Fátima, pois a visão do inferno com que os três pastorinhos foram favorecidos destinava-se evidentemente a acrisolar seu amor e seu senso de apostolado.

 

Devoção aos Sagrados Corações de Jesus e Maria

 

Sagrado Coração de Jesus

Sagrado Coração de Jesus

Em Fátima se inculca igualmente, com expressiva insistência, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que, ela também, tem sido posta na penumbra por certa tendência de espiritualidade muito em voga em nossos dias. O culto ao Sagrado Coração de Jesus foi considerado por todos os teólogos como uma das mais preciosas graças com que a Santa Igreja tem sido confortada nos últimos séculos. Destinava-se ela a reanimar nos homens o amor de Deus entorpecido pelo naturalismo da Renascença, pelos erros dos protestantes, jansenistas, deístas e racionalistas. No século passado, foi por meio desta devoção que o Apostolado da Oração produziu um admirável reflorescimento de vida religiosa em todo o mundo. E, como os males de que o Sagrado Coração de Jesus nos deve preservar crescem dia a dia, é evidente que dia a dia se acentua a atualidade desta incomparável devoção.

Imaculado Coração de Maria

Imaculado Coração de Maria

Contudo é preciso acrescentar que, na agravação dos males contemporâneos, a Providência como que quis superar a si própria, apontando aos homens como alvo de sua piedade o Coração de Maria, que de certo modo requinta e leva à sua plenitude o culto ao Sagrado Coração de Jesus. Os estudos e a devoção cordimariana não são novos. Quer nos parecer, entretanto, que a simples leitura das mensagens de Fátima demonstra com quanta insistência Nossa Senhora os quer para nossos dias. A missão que Ela confiou à Irmã Lúcia foi especialmente a de ficar na terra para atrair os homens ao Coração Imaculado de Maria.

Várias vezes esta devoção é recompensada durante as visões. Este Coração Santíssimo nos aparece mesmo, na segunda aparição, coroado de espinhos pelos nossos pecados, a pedir a oração reparadora dos homens. Parece-nos que este ponto como que compendia em si todos os tesouros das mensagens de Fátima.

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Em seu conjunto, pois, as aparições de Fátima de um lado nos instruem sobre a terrível gravidade da situação mundial e sobre as verdadeiras causas de nossos males. E de outro lado nos ensinam os meios pelos quais devemos obviar os castigos terrenos e eterno que nos ameaçam. Aos antigos, mandou Deus profetas. Em nossos dias, falou-nos pela própria Rainha dos Profetas. Assim estudado quanto Nossa Senhora quis, o que dizer? As únicas palavras adequadas são as de Nosso Senhor no Santo Evangelho: Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça…

 Plinio Corrêa de Oliveira

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(Catolicismo nº 30, junho/1953)
http://www.pliniocorreadeoliveira.info/1953_030_CAT_A_Devocao_ao_Coracao.htm