REFLEXÕES DE ANO NOVO SOBRE A LUTA ENTRE A IGREJA E ÁTILA

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“O inimigo violento e astuto se encontra em todo lugar e no meio de todos”

“Todos sabem que quando Atila, rei dos hunos, descia vitorioso a Itália, devastando o Veneto e a Liguria, e se preparava para marchar sobre Roma, o Papa Leão I infundiu coragem ao Imperador, ao Senado e ao povo, todos dominados pelo terror, e partiu indefeso e foi ao encontro do invasor no Mincio. Átila o recebeu dignamente e ficou tão satisfeito com a presença do “summus sacerdos” que renunciou a toda ação de guerra e se retirou para além do Danúbio.

Este fato memorável se passou precisamente pelo outono de 452, e sentimo-Nos felizes em comemorar aqui, solenemente, convosco, seu décimo quinto centenário.

Caros filhos, Homens da Ação Católica! Quando soubemos que a nova igreja ( oferecida a Sua Santidade pelos Homens da A. C. italiana ) deveria ser consagrada a São Leão I, que salvou Roma e a Itália do assalto dos bárbaros, veio-Nos o pensamento de que pretendíeis, talvez, fazer alusão às condições presentes. Hoje em dia não é só a Cidade Eterna e a Itália que estão ameaçadas, mas todo o mundo.

Oh! Não Nos pergunteis quem é “o inimigo”, nem sob que aspecto se apresenta. Ele se encontra em todo o lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social da unidade no organismo misterioso de Cristo. Ele quis a natureza sem a graça; a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes a autoridade sem a liberdade. É um “inimigo” que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e até Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um Direito sem Deus, uma política sem Deus. O “inimigo” se esforçou e se esforça por que Cristo se torne um estranho nas universidades, na escola, na família, na administração da justiça, na atividade legislativa, nas assembléias das nações, onde quer que se decida a paz ou a guerra.

Presentemente ele corrompe o mundo com uma imprensa e com espetáculos que matam o pudor nos jovens e nas moças e destroem o amor entre os esposos; ele inculca um nacionalismo que conduz à guerra.

Vós vedes, caros filhos, que não é Átila que está às portas de Roma; vós compreendeis que seria vão, hoje em dia, esperar do Papa que intervenha e caminhe a seu encontro para detê-lo e impedir que ele semeie a ruína e a morte. O Papa deve, de seu lugar, velar e rezar incessantemente e se prodigalizar a fim de que o lobo não acabe penetrando no redil, roubando e dispersando o rebanho ( cfr. Jo. 10, 12 ); os que, com o Papa, partilham a responsabilidade do governo da Igreja, fazem igualmente todo o possível para corresponder à expectativa de milhões de homens que, como expusemos em fevereiro último, solicitam uma mudança de rota e olham a Igreja como o único piloto capaz. Mas, hoje em dia, isto não basta; todos os fiéis de boa vontade devem sacudir o torpor e tomar consciência de sua parte de responsabilidade para o sucesso desta empresa de salvação…”

PIO XII

 

Falando à União dos Homens da Ação Católica Italiana, na manifestação grandiosa realizada na Praça de São Pedro em 12 de outubro último, o Santo Padre Pio XII se referiu em termos candentes às lutas da Igreja em nossos dias. Essas palavras admiráveis, que publicamos em nossa primeira página, bem merecem marcar como um fecho o ano de 1952, e como um programa de fogo o limiar de 1953.

* * *

 

O ano de 1952 transcorreu tão cheio e simultaneamente tão vazio, nele tanta agitação houve e tudo ficou de tal maneira na mesma, que do tumulto dos fatos a um tempo graves e inócuos que o encheram, apenas uma impressão nos ficou ao passar do dia 31 de Dezembro para o dia 1 de Janeiro: então, o ano já acabou?

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Desde o armistício, os observadores vêm esperando, em cada fim de ano, que o próximo seja “decisivo”. Bem entendido, cada qual espera a “decisão” num sentido conforme a seu temperamento. Os otimistas contam com uma súbita explosão de bom senso e de cordialidade de lado a lado, que resolva calma e rapidamente, em torno de uma mesa de conversações diplomáticas, todos os problemas pendentes entre os dois grandes blocos, ocidental e oriental. Os pessimistas também contam com uma explosão, mas de natureza bem diversa, que opere de um momento para outro, por um bombardeio atômico, uma transformação radical no mapa político.

Ora, as coisas mais inesperadas têm sucedido, mas precisamente o que não tem vindo é a “decisão”. Os anos se vão escoando um após outro, os problemas se vão agravando, a guerra fria vai consumindo cada vez mais as energias morais e materiais da humanidade. A perpétua proximidade deste desfecho que nunca chega vai empurrando cada vez mais o mundo na direção do socialismo, da desorganização e da pobreza. A precariedade crônica de todas as instituições, leis e sistemas vai desmoralizando cada vez mais os costumes privados. A ilogicidade flagrante de tudo quanto se passa na vida política vai tornando cada vez mais habituados os homens à idéia abstrusa de que a era da lógica e da inteligência já terminou, e de que o normal da existência humana é ser caótica, contraditória, irracional. Em última análise o pós-guerra está sendo pelo menos tão ruinoso para o mundo quanto a própria guerra.

O que será 1953 nesta sucessão de anos de “paz”? Trará uma “decisão”? Ou será mais uma etapa de ruinosa, de mortal indecisão?

Se a política internacional ainda fosse governada pela lógica, se ainda fosse movida por princípios definidos, e interesses confessáveis, seria útil ponderar diversas hipóteses, para chegar a uma resposta mais ou menos provável. Mas as idéias estão valendo muito pouco. Pode-se por exemplo reconhecer um caráter nitidamente ideológico a uma guerra fria – ou amanhã a uma guerra “quente” – em que há comunistas em ambas as trincheiras, isto é, numa os russos, e na outra os iugoslavos? Os interesses, pelo contrário, estão valendo muito. Mas quais são eles? Quais os potentados mil vezes mais ricos e mais despóticos do que César, Alexandre ou Napoleão, que por detrás dos bastidores dirigem este sabbath de confusão e corrupção em que se transformou o mundo de hoje? Como determinar quais os seus planos desde que eles os ocultam habilmente na imensa cacofonia contemporânea?

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Em vez de olhar para o dia de hoje, tentando desvendar com os dados que ele nos apresenta o dia de amanhã, seria mais interessante colocarmo-nos na perspectiva grandiosa que se desvenda nas palavras apocalípticas que o Santo Padre Pio XII dirigiu aos Homens da A. C. italiana. Remontemos com o Papa até o século XVI. Desse distante ponto de mira veremos melhor o futuro que nos aguarda, talvez não em 1953, mas em data não muito remota, se não tomarmos o caminho de uma verdadeira emenda.

Fala-nos o Papa de três revoluções religiosas sucessivas. A primeira teve como brado de guerra: “Jesus Cristo sim, a Igreja não”. Clara alusão ao protestantismo que irrompeu no século XVI. A segunda lançou um brado de guerra mais audacioso: “Deus sim, Jesus Cristo não”. O Sumo Pontífice se refere evidentemente ao deísmo do século XVIII, que culminou com a festa do Ser Supremo durante a Revolução Francesa. Por fim veio uma terceira revolução, tendo por lema: “Deus morreu, ou antes Deus nunca existiu”. É uma indiscutível alusão ao ateísmo do século XIX. Como fato mais recente, o Papa indica uma conseqüência imensa no campo político, econômico e social: “eis agora a tentativa de construir o mundo sobre bases que não hesitamos em apontar como as principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um Direito sem Deus, uma política sem Deus”.

Onde se desenvolve esta tentativa? Em outros termos, onde há uma política sem Deus, uma economia sem Deus, um Direito sem Deus? Praticamente, no mundo inteiro. É este mundo do qual se expulsou Deus, que se trata agora de organizar em bases novas.

Com efeito, nos Tempos Modernos o regime de união entre a Igreja e o Estado, que tem como corolário lógico a soberania da Lei de Deus no Direito, na Política, na economia, começou a ser falseado. Conservando embora as aparências da união, o Estado laicizou gradualmente esferas cada vez mais vastas da vida temporal, e interveio abusivamente no domínio espiritual. Aquilo que antes da Revolução Francesa era uma simples situação de fato, depois dela passou a ser também uma situação de direito. Em outros termos, a vida temporal se foi tornando cada vez mais leiga e ao mesmo tempo o laicismo passou a ser oficialmente proclamado como o próprio fundamento da organização política, econômica e social. Em conseqüência, quase por toda a parte a Igreja foi sendo separada do Estado, e se tornou oficial que Deus nada mais tem que ver com a existência terrena dos homens. Foi este, por exemplo, o sentido da separação no Brasil, em 1889.

Tal é o golpe tremendo, a chaga profunda de que padece o mundo contemporâneo. O mais – guerras, crises, confusão – não passa de conseqüência. E como não se faz cessar uma moléstia sem atacar as suas causas, enquanto não abandonarmos o laicismo e não voltarmos para uma sociedade que seja autenticamente católica de direito e de fato, estaremos caminhando de catástrofe em catástrofe até a crise que ponha fim a esta civilização.

Em outras palavras – e é esta a lição que nos fica bem clara no espírito – a crise continuará a maturar gradualmente, como há séculos já o vem fazendo. Durará mais, ou durará menos a explosão final: será 1953, 1963, ou qualquer outro o ano em que ela chegará à sua consumação? O Pontífice não o diz. Mas dia mais dia menos o desfecho virá terrível, se a humanidade não retroceder em seu caminho de apostasia. Pois tudo no mundo tende a seu fim lógico e natural: e o fim lógico e natural de toda crise, de toda moléstia, é a grande catástrofe orgânica a que damos o nome de morte.

* * *

 

Pio XII nos fala de um “inimigo” autor de todas estas desgraças. Lendo no texto pontifício a obra que este misterioso “inimigo” realiza, o pensamento voa em mil direções: para as Encíclicas monumentais com que Leão XIII condenou a maçonaria, apontando-a como autora do grande plano de corrupção que Pio XII tão bem descreve em sua realização atual; Para Dom Vital, sua luta ingente, sua santa e misteriosa morte; e, mais, muito mais para trás no longo passado da Igreja, para as revelações imponentes do Apocalipse, em que a história da luta entre o bem e o mal se desdobra em quadros grandiosos, desde a luta entre S. Miguel e Lúcifer, até o Anti-Cristo e o fim do mundo.

Neste imenso panorama, torna-se-nos claro que chegamos a um verdadeiro apogeu do poder do “inimigo”, e que na aparência tudo está perdido. Mas nele aprendemos igualmente que a Providência jamais abandonará os filhos da Igreja na luta contra o demônio ao longo da História.

Não é em vão que o Sumo Pontífice, falando do “inimigo” misterioso de nossos dias, o compara a Átila. Com efeito, a figura do famoso chefe huno passou para a História e para a lenda como a personificação da força destruidora no auge de seu ímpeto, de sua universalidade, de sua invencibilidade. Ao que se conta, ele mesmo se intitulava “flagelo de Deus”, e se jactava de uma tal força de destruição que nem a erva renascia sob as patas de seu cavalo. Invadindo a Europa já destroçara todas as linhas de defesa do Império romano cristianizado. A conquista de Roma representava para ele a derrota do mundo civilizado. A capital da Cristandade estava sem soldados, sem armas, sem defesa. Nesta situação trágica, o Papa São Leão I saiu ao encontro do rei huno, seguido apenas de pequena comitiva, e confiando unicamente na Providência Divina. Segundo documentos antigos, Átila, ao se acercar do Santo Pontífice, percebeu no Céu os vultos de São Pedro e São Paulo, que, com expressão terrível lhe ordenaram que retrocedesse. Obedeceu-lhes o “flagelo de Deus”. Roma estava salva. Em face de Átila São Leão I passou a encarnar para todos os séculos vindouros a virtude da confiança, pela qual o fiel, mesmo nas situações mais extremas, não perde o alento e continua a lutar, esperando tranqüilamente em Deus.

* * *

 

Caminhamos com ânimo calmo, vontade resoluta, sobranceria inalterável, nestes primeiros dias de 1953, olhando menos para Átila e seu poderio tremendo, do que para o Papa S. Leão e seu admirável exemplo.

Confiantes na intercessão onipotente de Nossa Senhora, continuamos a lutar, certos de que a vitória será nossa.


Matéria publicada na revista Catolicismo Nº 25 – Janeiro de 1953, Por Plinio Corrêa de Oliveira

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